Daniel Vorcaro e o colapso do Banco Master: De sultão de Brasília a prisioneiro em sua própria mansão. Como ele construiu um império de influência e fraudes.
O que parecia ser um “milagre” financeiro no coração do Brasil revelou-se um dos maiores escândalos de insolvência e corrupção bancária da década. Daniel Vorcaro, herdeiro da Multipar, não apenas adquiriu uma instituição falida — o antigo Banco Máxima —, mas a transformou em um motor de influência entre o mercado financeiro e a alta cúpula do poder em Brasília.
A engenharia do “milagre” financeiro
A ascensão do Banco Master baseou-se em uma estratégia de captação agressiva. Enquanto o mercado trabalhava com taxas próximas ao CDI, o Master atraía investidores oferecendo até 150% do CDI, o que investigações agora apontam como uma estrutura de insolvência mascarada.
- Maquiagem de Balanços: O banco é acusado de criar lucros fictícios para atrair novos aportes, usando dinheiro novo para pagar resgates antigos, enquanto desviava recursos para a holding Viking Participações.
- Socorro Público e Fraudes: O esquema teria drenado cerca de R$ 12 bilhões do Banco de Brasília (BRB) via carteiras fictícias, além de operar 250 mil contratos fraudulentos de empréstimos consignados contra aposentados do INSS.
O Resort Tayayá: O símbolo da ostentação
Um dos ativos mais emblemáticos ligados ao grupo de Vorcaro é o Tayayá Aqua Resort. O empreendimento de luxo, situado em Ribeirão Claro, na divisa entre Paraná e São Paulo, tornou-se um cartão de visitas da “nova era” de sucesso de Daniel. Sob a gestão da holding da família, o resort passou por expansões ambiciosas e era frequentemente citado como exemplo da solidez dos investimentos imobiliários que lastreavam a fortuna dos Vorcaro. Para investigadores, o uso de ativos de hospitalidade e lazer de alto padrão é um ponto de atenção na análise do fluxo de capital do grupo.
Conexões em Brasília e o contrato de R$ 129 milhões
Vorcaro utilizou o Banco Master para se tornar o principal anfitrião da magistratura brasileira. A instituição patrocinou fóruns de luxo em Nova York, Paris e Londres, onde Vorcaro privava com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Um dos detalhes mais críticos da Operação Compliance Zero foi a descoberta de um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O acordo previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por “assessoria jurídica ampla”. Até outubro de 2025, estima-se que R$ 79 milhões já haviam sido pagos.
O plano de fuga para Malta e a prisão
Ao perceber que as sanções do Banco Central e as investigações da Polícia Federal eram iminentes, Vorcaro planejou sua saída definitiva do Brasil. O destino seria Malta, arquipélago europeu conhecido por sua jurisdição financeira favorável e opaca.
A fuga foi frustrada em novembro de 2025, quando agentes da PF interceptaram o empresário na pista do Aeroporto de Guarulhos, prestes a decolar em seu jato particular. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, LetsBank e Master Corretora.
Conflitos no Judiciário e o voo da Libertadores
A imparcialidade do processo foi colocada em xeque após o ministro Dias Toffoli ser sorteado relator do caso no STF. Apenas um dia antes da relatoria, Toffoli viajou para Lima, no Peru, em um jatinho particular para assistir à final da Libertadores. No mesmo voo estava o advogado de um dos diretores investigados do banco. Pouco após retornar, Toffoli decretou sigilo máximo sobre o processo e centralizou as diligências sob sua autoridade.
Manipulação da opinião pública
Em uma última tentativa de resistência, Vorcaro teria tentado contratar influenciadores digitais para atacar o Banco Central. O vereador Ron Gabriel (Erechim/RS) revelou ter recebido propostas milionárias para usar sua base de 1,5 milhão de seguidores em defesa do banqueiro.
Atualmente, Daniel Vorcaro cumpre prisão domiciliar em uma de suas mansões, enquanto o processo segue envolto em sigilo e disputas entre a autonomia do Banco Central e decisões de instâncias superiores.

