A recente intensificação dos confrontos no Oriente Médio evidenciou a fragilidade do memorando de entendimento que havia sido costurado entre Teerã e Washington. O conflito, iniciado em 28 de fevereiro, já resultou na perda de milhares de vidas e entra agora em uma fase de ataques diretos a infraestruturas críticas de ambos os lados.
Infraestrutura civil e militar sob ataque mútuo
A nova dinâmica dos combates reflete uma estratégia de desgaste severo, atingindo alvos que impactam diretamente a subsistência das populações e a logística militar:
- Ações contra o Irã: Bombardeios norte-americanos atingiram hospitais, pontes, canteiros de obras de uma usina nuclear, além de usinas de combustíveis e de dessalinização de água — deixando cerca de 10 mil cidadãos iranianos sem abastecimento hídrico.
- Contraofensiva iraniana: Teerã intensificou disparos contra países do Golfo (como Bahrein e Kuwait) e a Jordânia, mirando bases militares dos Estados Unidos e instalações civis de energia e água.
Acordo com Washington é visto como manobra temporária por analistas
Para o major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e geopolítica, o documento assinado pelo presidente Donald Trump não representou uma intenção real de paz, mas sim uma estratégia de ganho de tempo.
“O presidente Donald Trump assinou o memorando porque foi informado que as reservas estratégicas de petróleo duravam mais quatro semanas, o que iria provocar uma crise, principalmente de diesel. O acordo foi uma ficção”, afirma o militar.
De acordo com a análise, o cumprimento integral do tratado significaria ceder ao Irã o controle sobre rotas marítimas vitais para nações parceiras dos EUA, como os Emirados Árabes Unidos. O pano de fundo do recrudescimento das ações seria a manutenção da hegemonia norte-americana na região.
Mudança de eixo coloca a Jordânia na linha de frente
O cientista político Ali Ramos aponta que a principal novidade desta fase é o volume de ataques concentrados contra o território jordaniano. O movimento é estratégico e decorre da reconfiguração logística das forças ocidentais:
| Fator geográfico / estratégico | Impacto no cenário atual |
| Fragilidade no Golfo | Tornou a Jordânia o principal hub logístico da Força Aérea dos EUA. |
| Neutralidade técnica de Israel | O aeroporto Ben Gurion atua como uma das maiores bases aéreas americanas na região, permanecendo intocado e funcionando como um “santuário”. |
Ramos pondera que a tática de “terra arrasada” adotada pelos EUA, além de não neutralizar os programas nuclear e balístico iranianos ou o apoio a milícias locais, tende a conferir maior legitimidade interna ao regime de Teerã devido ao forte impacto humanitário.
Falta de estratégia de longo prazo e o impasse de Ormuz
Especialistas ouvidos pela Agência Brasil convergem na avaliação de que a dependência exclusiva de incursões aéreas por parte de Washington demonstra a ausência de um plano resolutivo de longo prazo, uma vez que o poder ofensivo e de resposta do Irã permanece preservado.
Originalmente motivada por uma tentativa de mudança de regime no país persa — visando frear a influência econômica chinesa e consolidar o protagonismo israelense —, a estratégia norte-americana recuou para o objetivo de reabrir o Estreito de Ormuz nos moldes anteriores ao conflito.
Contudo, o governo iraniano já sinalizou que o controle do estreito, responsável histórico pelo escoamento de um quinto do petróleo mundial, deverá seguir um novo modelo de governança partilhado prioritariamente entre Irã e Omã, priorizando as demandas de segurança nacional de Teerã.
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