A CPI do Crime Organizado encerrou seus trabalhos na noite desta terça-feira (14 de abril de 2026) sob forte clima de tensão e denúncias de interferência política. Por 6 votos a 4, a base governista conseguiu rejeitar o parecer final do relator, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), que pedia o indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
A derrota do texto foi garantida por uma manobra regimental realizada horas antes da votação. O líder do bloco parlamentar, Eduardo Braga (MDB-AM), efetuou a troca de membros estratégicos: saíram os senadores oposicionistas Sérgio Moro (PL-PR) e Marcos do Val (Avante-ES) para a entrada de Teresa Leitão (PT-PE) e Beto Faro (PT-PA). Como o PT não integrava formalmente aquele bloco, a mudança foi criticada por Vieira como uma “interferência direta do governo” para blindar autoridades.
O “Caso Master” e os pedidos de indiciamento
O eixo central do relatório rejeitado era o chamado Caso Master, um suposto esquema de triangulação financeira envolvendo o Banco Master e o BRB (Banco de Brasília). Segundo a investigação, o esquema movimentou cerca de R$ 12 bilhões e utilizava empresas de fachada, como a Tirreno, para gerar fluxo de caixa artificial e ocultar a origem de recursos ligados ao crime organizado.
Com base nessas apurações, o relator pediu o indiciamento de:
- Alexandre de Moraes: Por proferir julgamentos em causas de suspeição. O texto cita oito viagens em aeronaves de Daniel Vorcaro, fundador do banco, enquanto o escritório da esposa do ministro mantinha contratos milionários com a instituição.
- Dias Toffoli: Acusado de conduta incompatível com o decoro e suspeição em processos relacionados ao grupo financeiro.
- Gilmar Mendes: Indiciado por obstruir os trabalhos da CPI ao anular quebras de sigilo e determinar a destruição de provas.
- Paulo Gonet (PGR): Acusado de desídia (negligência) no cumprimento de suas atribuições ao não dar andamento aos indícios colhidos.
Reações e contra-ataque do STF
A cúpula do Judiciário reagiu com dureza aos pedidos de indiciamento. O ministro Gilmar Mendes classificou o relatório como uma “cortina de fumaça” e afirmou que a medida flerta com a arbitrariedade ao tentar criminalizar decisões judiciais.
Já o ministro Dias Toffoli foi ainda mais incisivo, chamando o documento de “relatório aventureiro” e sugerindo que a Justiça Eleitoral deveria atuar para cassar ou impugnar a elegibilidade de congressistas que utilizam CPIs com intuito puramente eleitoral. Flávio Dino também saiu em defesa da Corte, classificando como um “gigantesco erro histórico” apontar o STF como o principal problema do país em vez de focar no combate a milicianos e facções.
Resultado da votação
Com a ausência do senador Marcio Bittar (PL-AC), o placar final pela rejeição foi composto pelos seguintes votos:
- Contra o relatório (Governo): Beto Faro (PT-PA), Teresa Leitão (PT-PE), Soraya Thronicke (PSB-MS), Humberto Costa (PT-PE), Otto Alencar (PSD-BA) e Rogério Carvalho (PT-SE).
- A favor do relatório (Oposição): Alessandro Vieira (MDB-SE), Magno Malta (PL-ES), Eduardo Girão (Novo-CE) e Esperidião Amin (PP-SC).
Apesar da rejeição oficial, o senador Alessandro Vieira afirmou que os dados colhidos sobre o Caso Master e o controle territorial do crime organizado já estão em posse da Polícia Federal e deverão alimentar novas investigações criminais de forma independente ao Senado.
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